O Espinho na Carne de Paulo
O ESPINHO NA CARNE DE PAULO
“E para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte” (2Co 12:7).
Muito se tem discutido ao longo dos séculos sobre o que foi o espinho na carne do apóstolo Paulo. Não há consenso entre os estudiosos sobre o assunto. Alguns dizem que se tratava da culpa que o assolava em virtude de sua implacável perseguição à igreja. Outros pensam que era uma referência ao orgulho que o acicatava em virtude de seu esplêndido ministério e das arrebatadoras visões que Deus lhe dera. Há aqueles que acreditam que se tratava da solidão em virtude de ter se privado do casamento para fazer a obra de Deus. Ainda outros pensam que era uma referência à perseguição que sofria dos judeus, seus compatrícios, a quem amava e estava pronto até mesmo se perder para que eles fossem salvos. Estou inclinando a pensar, entretanto, que o espinho da carne de Paulo tratava-se de uma doença física. E isso, pelas razões que elenco.
Em primeiro lugar, Paulo afirma que pregou o evangelho pela primeira vez na Galácia por causa de uma enfermidade física (Gl 4:13). Não consta o texto bíblico que Paulo tenha saído de Antioquia da Síria doente, para fazer a primeira viagem missionária, mas consta que chegou na Galácia doente. Logo, deve ter contraído a enfermidade no caminho. É mui provável que isso ocorreu em Perge da Panfília, onde o jovem João Marcos abandonou os dois missionários, retornando para a casa sua mãe, em Jerusalém (At 13:13). Essa região era pantanosa e fortemente marcada por incidência de malária. Essa doença provoca uma dor de cabeça alucinante, afetando inclusive a visão. É provável que Paulo tenha contraído nessa região pantanosa uma malária.
Em segundo lugar, a enfermidade física estava relacionada à sua visão. Ao chegar na Galácia, os crentes constataram a doença do apóstolo Paulo e disseram-lhe que se possível arrancariam os próprios olhos para dá-los, a fim de minorar seu sofrimento (Gl 4:14,15) Fica subentendido, portanto, que a doença de Paulo estava relacionada ao seu campo de visão. Não se tratava de uma doença emocional nem mesmo de um problema moral.
Em terceiro lugar, Paulo precisava usar escreventes para ditar suas cartas. O fato de Paulo usar um secretário para escrever suas cartas é mais uma razão eloquente para associar sua enfermidade à sua limitação visual (Rm 16:22). Ao terminar as cartas aos Colossenses e 2 Tessalonicenses, diz: “A saudação é de próprio punho” (Cl 4:18; 2Ts 3:17)). Ele termina sua carta aos Gálatas, dizendo: “Vede com que grandes letras vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6:11). Em Jerusalém, chamou o sumo sacerdote de “parede branqueada” (At 23:3), talvez porque não enxergasse com total clareza.
Em quarto lugar, a enfermidade física veio de Deus e tinha um propósito santo. Muito embora Paulo tenha afirmado que o espinho na carne era um mensageiro de Satanás para esbofeteá-lo, deixa claro que a procedência desse espinho era divina (2Co 12:7). E isso fica claro por causa do propósito, ou seja, para que ele não se ensoberbecesse. Sem dúvidas, Satanás trabalha sem descanso para fazer do homem um pavão, um poço de vaidade.
Em quinto lugar, Satanás estapeava o rosto de Paulo com esse sofrimento. Se o espinho na carne de Paulo vinha de Deus, por que então, Satanás estapeava o rosto do apóstolo com esse espinho? Porque esse é o papel de Satanás. Quando a providência de Deus é carrancuda, Satanás se aproxima e pergunta: “Você não é crente? Você não serve a Deus? Por que você está sofrendo? Por que está doente? Por que Deus não lhe cura?”. Se Deus amasse você, você não estaria nessa. Satanás usava todas essas insinuações para bater na cara de Paulo.
Em sétimo lugar, Paulo orou para ser curado, mas Deus lhe deu não cura, mas graça. Em face desse espinho na carne e de seu atroz sofrimento, o veterano apóstolo rogou ao Senhor três vezes para curá-lo (Gl 12:8-10). Em todas elas recebeu o não como resposta. Entretanto, Deus lhe disse: “A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Deus não extraiu o espinho de Paulo, mas deu-lhe graça para superar o sofrimento. Então, ele passou a gloriar-se nas suas fraquezas e viver na completa dependência de Deus.
Diante do exposto, estou mais inclinado a afirmar que o espinho na carne do apóstolo Paulo era mesmo uma enfermidade física.
Rev. Hernandes Dias Lopes
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