17/09/2026

A AGONIA DO FILHO DE DEUS

O Getsêmani é uma geografia e um símbolo do sofrimento. Situado nas fraldas do monte das Oliveiras, ali ficava uma prensa de azeite, onde as azeitonas eram esmagadas para extrair o precioso líquido, a fim de manter as lamparinas acesas e, ao mesmo tempo, dar sabor às mesas. Foi para esse lugar que Jesus se dirigiu na noite em que foi traído, e onde travou a mais renhida batalha da humanidade.

 

Depois de instituir a Ceia no Cenáculo, Jesus se dirigiu com seus discípulos para o Getsêmani. Alertou Pedro que ele o negaria três vezes e adiantou que seus discípulos se dispersariam no aceso da batalha. Jesus, deixando oito de seus discípulos para trás, avançou para o interior do Jardim do Getsêmani com Pedro, Tiago e João. Ali sua alma foi tomada por angústia atroz em três níveis.

 

Em primeiro lugar, Jesus admite a angústia para si mesmo. “E, levando consigo a Pedro e aos filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se” (Mt 26:37). Jesus era perfeitamente Homem e perfeitamente Deus. Como Homem estava sujeito aos mesmos sentimentos que nos assolam. Estava diante dele o cálice amargo que deveria ser sorvido até à última gota. Esse cálice não era a humilhação da prisão, nem a crueldade de seus acusadores, tampouco a covardia daquele que o condenaria à morte. Esse cálice era a ira santa de Deus que deveria cair sobre a nossa cabeça. Como nosso substituto, Deus lançou sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi feito pecado por nós. Ele, sendo bendito eternamente, fez-se maldição. Ele carregou sobre seu corpo, no madeiro, os nossos pecados. Sua alma estava triste e angustiada.

 

Em segundo lugar, Jesus admite sua angústia para os outros. “Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26:38). Depois de admitir para si mesmo a sua angústia e tristeza, Jesus admite sua tristeza mortal para seus discípulos. Muitas coisas, Jesus falou às multidões. Outras coisas, falou apenas aos doze apóstolos. Quando, porém, foi tomado por uma angústia de morte, falou apenas aos seus três discípulos mais achegados. Pedro, Tiago e João não compreenderam a natureza nem a intensidade dessa batalha que Jesus estava travando. Em vez de ficarem com Jesus, vigiando com ele, dormiram. Em vez de estarem junto do Mestre, renderam-se ao sono. Na única vez que Jesus rogou a solidariedade de seus discípulos, eles falharam. Em vez de orarem e vigiarem, capitularam-se ao sono.

 

Em terceiro lugar, Jesus admite sua angústia ao Pai. “Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”. Jesus trava uma luta de sangrento suor no Getsêmani. Em três turnos de oração, Jesus chora e depois sangra. Molha o chão não apenas com suas lágrimas, mas, também, com seu sangue. A angústia lhe espreitou no Getsêmani. Aqui ele travou a maior batalha de todos os tempos. A Escritura diz que: “Ele, Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5:7,8). Jesus chorou e sangrou não para fugir da vontade do Pai, mas para fazê-la. Do Getsêmani Jesus se levantou sem angústia. Enfrentou seus algozes com firmeza granítica. Disse que sua prisão ocorreu porque aquela era a hora das trevas. Sendo cuspido, esbordoado e acusado no Sinédrio, permaneceu imperturbavelmente firme. Sendo levado ao pretório romano, estava inabalável como uma rocha. Ao caminhar sob o lenho pesado, pelas apinhadas ruas de Jerusalém, em face do choro das mulheres, disse-lhes: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23:28). Ao ser pregado na cruz, transformou aquele patíbulo de horror num palco para a glória de Deus e no instrumento da nossa salvação. Jesus morreu e foi sepultado, mas a morte não pôde detê-lo. Ao terceiro dia, ele arrancou o aguilhão da morte, matou a morte e ressuscitou inaugurando a imortalidade. Hoje ele está à direita da Majestade e voltará em glória para buscar sua noiva, a igreja.

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